|
Por Ana Rosa Colhado Integrante do
movimento
www.BrazilianArtists.net
Foi
com o espírito carnavalesco brasileiro e com a participação de
grandes nomes do carnaval carioca, como o puxador Dominguinhos
da Estácio e da musa Viviane Araujo, que a Escola de Samba
londrina Paraíso mostrou o resultado da sua mais recente
produção aos foliões do carnaval caribenho de Notting Hill,
realizado em Londres no último dia 31. Classificada em
primeiro lugar no módulo samba-enredo da categoria Escola de
Samba pelo júri oficial do evento, ao lado da escola de samba
Quilombo dos Palmares, a Paraíso representou de maneira
expressiva o carnaval brasileiro. Nesta matéria especial,
buscamos situar o leitor a respeito dessa grande festa de
celebração da vida, há séculos comemorada em vários países do
mundo nas mais diversas formas de expressão cultural e
folclórica dos povos.
Londres É na Grécia antiga que vamos
encontrar a origem desse folguedo hoje considerado um dos
pilares da cultura contemporânea brasileira.
Em homenagem a Dionísio, o deus do vinho, e mais tarde com
os Romanos, em homenagem a Baco, o equivalente do grego
Dionisio, nosso ancestrais deram início à tradição do
carnaval, em um evento caracterizado por uma grande festa onde
pessoas de todas as classes sociais – escravos e senhores – se
encontravam para celebrarem juntas. Saturnal, como era chamado
o carnaval na Antiga Roma, era a celebração onde escravos e
seus senhores trocavam roupas entre eles e bebiam juntos por
um dia. Mais tarde, na Itália, modificado pela Igreja
católica, o carnaval se transformou em uma festividade que
antecede o período da quaresma – quarenta dias antes da Páscoa
quando os católicos se abstêm do álcool, da carne, da música e
de relacões sexuais. Três dias antes da Quarta-feira de cinzas
os religiosos se despedem dos prazeres sensuais vestindo
fantasias, bebendo o último gole de álcool, comendo carne,
dançando e celebrando com outros pela rua. A própria palavra
“carnevale”, em latin, significa “adeus a carne”. Dessa
maneira a prática italiana logo se difundiu por todos os
países católicos da Europa.
Quando a França, a Espanha e Portugal começaram a colonizar
a América e outras partes do mundo, levaram consigo a tradição
do carnaval católico europeu, que mais tarde seria modificada
pela forte influência dos escravos africanos até tomar a forma
do moderno carnaval que conhecemos hoje em dia, seja ele
Marden Gras em Lousiana, Trinidad e Tobago ou Rio de Janeiro.
No Brasil, o primeiro carnaval foi introduzido pelos
portugueses na forma de Entrudo, uma festa caótica na qual os
participantes atiravam água, lama e comida uns nos outros. Em
1604, o Entrudo foi proibido pela Coroa que o considerava
muito violento, mas isso não impediu que se continuasse a
comemorar o carnaval em solo brasileiro. Assim, em 1840,
realizou-se o primeiro desfile de máscaras no Rio de Janeiro.
Mas o samba, elemento base do atual carnaval, só entra na
brincadeira em 1917, com o primeiro samba (”Pelo Telefone”)
gravado no Rio de Janeiro pelos compositores Donga e João da
Baiana.
África e Europa se misturam no
Brasil Daí se conclui a importância vital da
influência africana naquilo que hoje chamamos carnaval. Não só
na parte musical (samba) mas também em outros setores. No
alegórico, por exemplo, as penas frequentemente usadas na
confecção das fantasias fazem parte de uma tradição africana,
que as consideram um símbolo da habilidade humana de elevar-se
em meio aos sofrimentos e de crescer espiritualmente. Desta
mistura cultural entre África e Europa, após dez anos da
introdução do samba no carnaval, a comunidade negra do bairro
do Estácio formaria a Escola de Samba “Deixa Falar”, mais
tarde “Unidos de São Carlos” e finalmente “Estácio de Sá”,
criando o carnaval carioca como o conhecemos hoje.
O carnaval pernambucano, com destaque para o maracatu, e
aquele baiano com seus blocos afros e trios elétricos,
completam a esfera da indústria carnavalesca brasileira que
não gera apenas alegria, mas também gera dinheiro, trazendo
mais de quinhentos mil turistas para as cidades de Salvador,
Recife, Olinda e Rio de Janeiro, dos quais pelo menos
cinquenta mil vem do exterior.
A folia chega a Londres Contudo, para
os europeus que não tem como brincar o carnaval brasileiro “in
loco” e para os brasileiros saudosos da folia, o carnaval de
Notting Hill, que acontece anualmente no final do mês de
agosto em Londres, é uma boa oportunidade para experimentar ou
reviver o sabor do nosso carnaval, graças as três escolas de
samba e a um grupo de maracatu, o Estrela do Norte.
Comemorado há quarenta anos, o Notting Hill Carnival teve
inicío com os imigrantes negros caribenhos, especialmente
aqueles vindo de Trinidade e Tobago, onde a tradição do
carnaval também é muito forte. Neste ano, devido a crescente
participação de grupos brasileiros no festival, foi criado,
pelo júri-oficial do evento, a categoria Escola de Samba,
entre as outras cinco já existentes: MAS (fantasia e carro
alegórico), Calypso, Soca, Steelpan (panelas de aço usadas
como tambores) e Static Sound Systems (Sistemas de Som de
DJ’s). Tal fato mostra que a presença brasileira começa a
tomar forma em um dos maiores carnavais da Europa, como é
considerado o carnaval caribenho de Londres.
A Paraíso Baseando-se no contexto do
carnaval europeu, a Escola de Samba Paraíso desfilou no último
Notting Hill Carnival sob o enredo “Venice, Rio back to
London”. Entre penas, miçangas, biquínis e pinturas corporais,
alusões a símbolos do carnaval italiano foram exibidas nos
trezentos participantes que se apresentaram nos moldes do
carnaval carioca em dez diferentes alas, usando máscaras,
perucas e trajes venezianos dos séculos XV e XVI, incluindo as
famosas fantasias de Colombina e Pierrot. O todo gerou uma
curiosa e exuberante mistura visual de carnaval carioca com
veneziano.
A presença do atual puxador da escola de samba carioca
Viradouro, Dominguinhos da Estácio, e da rainha da bateria da
Padre Miguel, Viviane Araújo, enfatizou a identidade carioca
da escola no desfile da Paraíso, proporcionando ao público
presente a sensação, ou mesmo a doce ilusão, de estar em pleno
mês de fevereiro na cidade do Cristo Redentor. Sem falar da
presença do mestre de bateria da Estácio de Sá, Esteves Silva,
um dos fundadores da Paraíso juntamente com seu irmão e
passista da Mangueira, Henrique Silva. O som da bateria
poderosa combinado com a voz de Dominguinhos foi responsável
por dar a Notting Hill esse clima tão brasileiro.
“Os desfiles das escolas de samba cariocas são o maior
espetáculo audio-visual do mundo” firmou Dominguinhos, que
disse acreditar que o carnaval brasileiro na Europa está
começando a brotar. “No futuro será ainda melhor. A presença
brasileira no Notting Hill Carnival está ajudando a atrair
ainda mais público para a festa”, acrescentou o puxador e
compositor.
Indagado sobre a autoria do samba-enredo de 2004 da
Paraíso, Dominguinhos explicou: “A escolha do tema cabe à
escola. Ao compositor cabe fazer uma pesquisa sobre o tema
antes da sua criação. O samba-enredo sobre Veneza é um samba
alusivo ao clima que a Paraíso está vivendo hoje”, concluiu
ele.
E para você que perdeu a oportunidade de ver a Paraíso
“botando pra quebrar” no Notting Hill 2004, ainda resta o “The
Mayor’s Thames Festival”, que acontece no domingo dia 19 de
setembro. A Paraíso fará uma desfile que começa na estação de
metrô de Embankment, passa pela ponte de Blackfriars e encerra
no National Theatre. Nós do movimento Brazilian Artists
recomendamos! Não perca!
Veja detalhes sobre os
eventos futuros da Paraíso na nossa Agenda
Cultural
Artigo produzido pelo http://www.brazilianartists.net/
|