London, United Kingdom, 16 de setembrode 2004 • Edição 139
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O Carnaval da Grécia
à Notting Hill

 


Por Ana Rosa Colhado
Integrante do movimento www.BrazilianArtists.net


Foi com o espírito carnavalesco brasileiro e com a participação de grandes nomes do carnaval carioca, como o puxador Dominguinhos da Estácio e da musa Viviane Araujo, que a Escola de Samba londrina Paraíso mostrou o resultado da sua mais recente produção aos foliões do carnaval caribenho de Notting Hill, realizado em Londres no último dia 31. Classificada em primeiro lugar no módulo samba-enredo da categoria Escola de Samba pelo júri oficial do evento, ao lado da escola de samba Quilombo dos Palmares, a Paraíso representou de maneira expressiva o carnaval brasileiro. Nesta matéria especial, buscamos situar o leitor a respeito dessa grande festa de celebração da vida, há séculos comemorada em vários países do mundo nas mais diversas formas de expressão cultural e folclórica dos povos.

Londres
É na Grécia antiga que vamos encontrar a origem desse folguedo hoje considerado um dos pilares da cultura contemporânea brasileira.

Em homenagem a Dionísio, o deus do vinho, e mais tarde com os Romanos, em homenagem a Baco, o equivalente do grego Dionisio, nosso ancestrais deram início à tradição do carnaval, em um evento caracterizado por uma grande festa onde pessoas de todas as classes sociais – escravos e senhores – se encontravam para celebrarem juntas. Saturnal, como era chamado o carnaval na Antiga Roma, era a celebração onde escravos e seus senhores trocavam roupas entre eles e bebiam juntos por um dia. Mais tarde, na Itália, modificado pela Igreja católica, o carnaval se transformou em uma festividade que antecede o período da quaresma – quarenta dias antes da Páscoa quando os católicos se abstêm do álcool, da carne, da música e de relacões sexuais. Três dias antes da Quarta-feira de cinzas os religiosos se despedem dos prazeres sensuais vestindo fantasias, bebendo o último gole de álcool, comendo carne, dançando e celebrando com outros pela rua. A própria palavra “carnevale”, em latin, significa “adeus a carne”. Dessa maneira a prática italiana logo se difundiu por todos os países católicos da Europa.

Quando a França, a Espanha e Portugal começaram a colonizar a América e outras partes do mundo, levaram consigo a tradição do carnaval católico europeu, que mais tarde seria modificada pela forte influência dos escravos africanos até tomar a forma do moderno carnaval que conhecemos hoje em dia, seja ele Marden Gras em Lousiana, Trinidad e Tobago ou Rio de Janeiro. No Brasil, o primeiro carnaval foi introduzido pelos portugueses na forma de Entrudo, uma festa caótica na qual os participantes atiravam água, lama e comida uns nos outros. Em 1604, o Entrudo foi proibido pela Coroa que o considerava muito violento, mas isso não impediu que se continuasse a comemorar o carnaval em solo brasileiro. Assim, em 1840, realizou-se o primeiro desfile de máscaras no Rio de Janeiro. Mas o samba, elemento base do atual carnaval, só entra na brincadeira em 1917, com o primeiro samba (”Pelo Telefone”) gravado no Rio de Janeiro pelos compositores Donga e João da Baiana.

África e Europa se misturam no Brasil
Daí se conclui a importância vital da influência africana naquilo que hoje chamamos carnaval. Não só na parte musical (samba) mas também em outros setores. No alegórico, por exemplo, as penas frequentemente usadas na confecção das fantasias fazem parte de uma tradição africana, que as consideram um símbolo da habilidade humana de elevar-se em meio aos sofrimentos e de crescer espiritualmente. Desta mistura cultural entre África e Europa, após dez anos da introdução do samba no carnaval, a comunidade negra do bairro do Estácio formaria a Escola de Samba “Deixa Falar”, mais tarde “Unidos de São Carlos” e finalmente “Estácio de Sá”, criando o carnaval carioca como o conhecemos hoje.

O carnaval pernambucano, com destaque para o maracatu, e aquele baiano com seus blocos afros e trios elétricos, completam a esfera da indústria carnavalesca brasileira que não gera apenas alegria, mas também gera dinheiro, trazendo mais de quinhentos mil turistas para as cidades de Salvador, Recife, Olinda e Rio de Janeiro, dos quais pelo menos cinquenta mil vem do exterior.

A folia chega a Londres
Contudo, para os europeus que não tem como brincar o carnaval brasileiro “in loco” e para os brasileiros saudosos da folia, o carnaval de Notting Hill, que acontece anualmente no final do mês de agosto em Londres, é uma boa oportunidade para experimentar ou reviver o sabor do nosso carnaval, graças as três escolas de samba e a um grupo de maracatu, o Estrela do Norte.

Comemorado há quarenta anos, o Notting Hill Carnival teve inicío com os imigrantes negros caribenhos, especialmente aqueles vindo de Trinidade e Tobago, onde a tradição do carnaval também é muito forte. Neste ano, devido a crescente participação de grupos brasileiros no festival, foi criado, pelo júri-oficial do evento, a categoria Escola de Samba, entre as outras cinco já existentes: MAS (fantasia e carro alegórico), Calypso, Soca, Steelpan (panelas de aço usadas como tambores) e Static Sound Systems (Sistemas de Som de DJ’s). Tal fato mostra que a presença brasileira começa a tomar forma em um dos maiores carnavais da Europa, como é considerado o carnaval caribenho de Londres.

A Paraíso
Baseando-se no contexto do carnaval europeu, a Escola de Samba Paraíso desfilou no último Notting Hill Carnival sob o enredo “Venice, Rio back to London”. Entre penas, miçangas, biquínis e pinturas corporais, alusões a símbolos do carnaval italiano foram exibidas nos trezentos participantes que se apresentaram nos moldes do carnaval carioca em dez diferentes alas, usando máscaras, perucas e trajes venezianos dos séculos XV e XVI, incluindo as famosas fantasias de Colombina e Pierrot. O todo gerou uma curiosa e exuberante mistura visual de carnaval carioca com veneziano.

A presença do atual puxador da escola de samba carioca Viradouro, Dominguinhos da Estácio, e da rainha da bateria da Padre Miguel, Viviane Araújo, enfatizou a identidade carioca da escola no desfile da Paraíso, proporcionando ao público presente a sensação, ou mesmo a doce ilusão, de estar em pleno mês de fevereiro na cidade do Cristo Redentor. Sem falar da presença do mestre de bateria da Estácio de Sá, Esteves Silva, um dos fundadores da Paraíso juntamente com seu irmão e passista da Mangueira, Henrique Silva. O som da bateria poderosa combinado com a voz de Dominguinhos foi responsável por dar a Notting Hill esse clima tão brasileiro.

“Os desfiles das escolas de samba cariocas são o maior espetáculo audio-visual do mundo” firmou Dominguinhos, que disse acreditar que o carnaval brasileiro na Europa está começando a brotar. “No futuro será ainda melhor. A presença brasileira no Notting Hill Carnival está ajudando a atrair ainda mais público para a festa”, acrescentou o puxador e compositor.

Indagado sobre a autoria do samba-enredo de 2004 da Paraíso, Dominguinhos explicou: “A escolha do tema cabe à escola. Ao compositor cabe fazer uma pesquisa sobre o tema antes da sua criação. O samba-enredo sobre Veneza é um samba alusivo ao clima que a Paraíso está vivendo hoje”, concluiu ele.

E para você que perdeu a oportunidade de ver a Paraíso “botando pra quebrar” no Notting Hill 2004, ainda resta o “The Mayor’s Thames Festival”, que acontece no domingo dia 19 de setembro. A Paraíso fará uma desfile que começa na estação de metrô de Embankment, passa pela ponte de Blackfriars e encerra no National Theatre. Nós do movimento Brazilian Artists recomendamos! Não perca!

Veja detalhes sobre os eventos futuros da Paraíso na nossa Agenda Cultural


Artigo produzido pelo http://www.brazilianartists.net/